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Convertendo talhas de pedra em cálices!
Pr. Caio Fábio
Adicionado em: 30/10/2013 , Acessos: [419] A-   A+


PREGAÇÃO REV. CAIO FÁBIO – 22 de JUNHO de 2004
TEMA: CONVERTENDO TALHAS DE PEDRA EM CÁLICES
TEXTO: João 2:1-22
LOCAL: CATEDRAL PRESBITERIANA DO RIO - CULTO DAS TERÇAS-FEIRAS

Vamos ler o Evangelho de João, no capítulo 2. E enquanto você se prepara para ler, eu queria que você prestasse a atenção ao seguinte: o Evangelho de João é bastante diferente dos outros 3 Evangelhos: Mateus, Marcos e Lucas.

Marcos é um Evangelho profundamente objetivo e pragmático. Ele não tem genealogia, ele não conta histórias de Jesus anteriores ao início do ministério de Jesus. Mais do que ensinos e oráculos do Senhor, Marcos afirma fatos, feitos, acontecimentos, histórias, milagres, encontros.

Mateus usa essa estrutura de Marcos e acrescenta algumas outras coisas, especialmente, uma quantidade grande de parábolas e ensinos de Jesus. Acrescenta o Sermão do Monte e muitas falas de Jesus que não estão presentes em Marcos. Sem esquecer também a genealogia de Jesus, o nascimento, visita dos Magos, coisas que aconteceram na infância de Jesus, e estão presentes ali, algumas delas.

Lucas vai mais longe ainda. Ele tem uma genealogia que não vai apenas até Abraão; portanto, diferente da de Mateus que é bastante étnica, posto que um de seus objetivos (do evangelho de Mateus), era mostrar que Deus cumprira o seu propósito e a sua promessa conforme feita a Abraão, conforme afirmada em Davi e conforme todos os profetas de Israel, de modo que Jesus era o Cristo, o Filho de Deus.

Lucas, entretanto, faz com que essa genealogia vá até Adão. E amplia os horizontes, vinculando-os à toda humanidade. Até porque Lucas, como discípulo de Paulo, está o tempo todo preocupado em afirmar coisas acerca do Evangelho que fossem pertinentes ao mundo inteiro, e não apenas ao judaísmo e aos judeus. Por isso, ele vai até Adão, e como quê, diz a todos: Olha, se você não é judeu, mas humano você é; e essa Palavra aqui é para todos os seres humanos.

A proposta do Evangelho de Lucas também é tentar apresentar uma narrativa em ordem um pouco mais cronológica. Por isto ele diz que escreveu depois de muita pesquisa, e com toda a exatidão possível, para dar a conhecer a um homem chamado de Excelentíssimo Teófilo, as coisas que tinham acontecido e estavam acontecendo naqueles dias (Atos), e antes daqueles dias (O Evangelho).

João, no entanto, não tem nenhuma dessas preocupações. A genealogia dele é metafísica. No princípio era o Verbo. O Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio Dele e sem Ele nada do que foi feito, se fez.

Portanto, João não remete o Messias apenas para o mundo das ocorrências, como Marcos; nem para Abraão, como Mateus; não remete o Messias para Adão, como Lucas; ele o remete direto para Deus. Ele é o Logus de Deus. É o Verbo Encarnado que apareceu entre nós cheio de Graça e de Verdade. E vimos a sua glória; glória como do unigênito do Pai.

Além disso, João não tem preocupações cronológicas, que você vê nos outros Evangelhos chamados sinópticos – Mateus, Marcos e Lucas. Neles, apesar de algumas diferenças, as coisas estão razoavelmente em ordem, na seqüência. São narrativas históricas, progressivas, que guardam coerência com a trajetória histórica.

João é muito sincero em relação ao que ele está fazendo. Ele não está escrevendo uma biografia de Jesus. Ele está relatando a mensagem de Jesus. A mensagem que ele, já idoso, havia discernido durante o curso da sua própria vida, e cuja síntese estava cada vez mais clara no entendimento dele.

É por isso que ele não guarda essa preocupação cronológica. Por exemplo: aqui, em João no Cap. 2, a gente tem o início do ministério público de Jesus transformando água em vinho, em Caná da Galiléia. Esse é seu primeiro sinal: Interveio naquele casamento que estava fadado ao fracasso, numa celebração de alegria que se empobrecia pela falência do vinho, e era assim porque o vinho tinha acabado—Sim, Ele transformou a água em vinho para que a festa continuasse.

Mas logo a seguir, a gente vê que Jesus sai dali, e João diz que Ele entrou no templo. E Ele olhou todas as coisas em volta e viu o comércio da fé, que estava sendo feito ali. E se insurgiu contra isso, expulsou os cambistas, os vendilhões, e todos aqueles que eram os camelôs da fé, que estavam vendendo pacotes de sacrifício e de barganha entre o homem e Deus, os enxotou dali com o azorrague que Ele, premeditadamente, construiu e que usou; da maneira mais pragmática possível, contra aqueles que ali estavam negociando com as coisas de Deus, na casa de Deus, e fazendo manipulação do sagrado.

Eles estavam ideologizando Deus de um lado e comerciando Deus de um outro. Vendendo Deus como fetiche. Transformando o lugar do culto a Deus num panteão de ídolos, que ali não se manifestavam conforme o panteão greco-romano. Claro! Não havia nichos com imagens de escultura, mas havia a idolatria da barganha com Deus, e do negócio com Deus, e da comercialização das coisas de Deus.

Ora, esse episódio, da purificação do templo, não começa, de fato; e nem acontece, de fato; no início do ministério de Jesus. Mas acontece no final, quando Ele entra triunfalmente, em Jerusalém; e logo depois vai ao templo, e faz isto.

João, como eu disse, não esconde a sua sinceridade quanto ao fato de que ele não está voltando e narrando o Evangelho como cronologia. Ele está narrando o Evangelho de conteúdos, de significados, de mensagem. E ele diz isso no final do seu Evangelho. Quando ele está concluindo, ele diz: Ora, Jesus fez muitas outras coisas que não estão escritas aqui, neste livro. Se cada uma delas fosse narrada, fosse contada, não haveria na terra lugar para guardar os livros que seriam escritos. Estas, porém, que eu escrevi, o fiz para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; e para que crendo, tenhais vida em Seu nome.

O fato de que ele é João deliberado na construção da arquitetura do seu Evangelho, fazendo com que a própria construção do Evangelho carregue a mensagem que ele quer passar, e que também se expressa na eleição que o apóstolo fez dos milagres que ele escolheu para colocar ali. Porque foram tantos os milagres de Jesus que, ele mesmo, João, teve que selecionar alguns; que eram indicadores crescentes da mensagem que João queria afirmar para todo ser humano que lesse o seu Evangelho.

E aí ele começa com o milagre de Caná, que é um deles. Depois tem a cura do filho do oficial do rei. Depois, no capítulo 5, tem a cura do paralítico de Betesda, que estava ali há 38 anos. Depois tem-se a multiplicação dos pães e peixes. Depois Jesus anda sobre as águas. E você vai prosseguindo e vendo que vem a cura do cego de nascença, e a ressurreição de Lázaro. E você vê que cada um desses episódios João atrela diretamente à mensagem que Jesus falara antes ou depois. Isto porque, do ponto de vista de João, o milagre, conquanto real, era também metafórico, parabólico, ilustrativo, da mensagem que Jesus trouxera e encarnava.

Ou seja, Jesus, naqueles contextos, partiu de um milagre realizado, e transforma o milagre numa metáfora, para que os seres humanos compreendam o significado da mensagem.

Isso posto, a gente vai ler agora João, no capítulo 2, porque com essa introdução, o entendimento já cresce mais do que o tamanho dessa catedral. Se a gente ler, com essa consciência, tudo mudará.

“Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galiléia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com seus discípulos, para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo que ele vos disser. Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Jesus lhes disse: Enchei d’ água as talhas. E eles as encheram totalmente. Então, lhes determinou: Tirai agora e levai ao mestre-sala. Eles o fizeram. Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam trazido a água), chamou o noivo e lhe disse: Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora. Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. Depois disto, desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias. Estando próxima a Páscoa dos judeus, subiu Jesus para Jerusalém. E encontrou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas e também os cambistas assentados; tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou a mesa e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de negócio. Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá. Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas? Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei. Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás? Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo. Quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus.” Amém!

Oração:

Pai, ilumina a nossa mente; a de todos nós. A minha, para que eu não seja um elaborador de pensamentos relacionados a tua Palavra, mas apenas um instrumento que não precisa nem se servir de pensamentos; ao contrário, que eu corra atrás da própria Palavra, que ela brote de mim, numa intensidade maior do que a minha capacidade de produzi-la. E, por favor, sê com a mente de cada um de nós, de modo que ninguém fique para trás, ninguém se atrase, ninguém se distraia, ninguém se feche, ninguém se entrave, ninguém sele o coração, ninguém se deixe vencer por qualquer coisa; mas, ao contrário, que a tua Palavra nos visite, não apenas entrando pelos nossos ouvidos, mas sobretudo, ecoando como voz de muitas águas, nos nossos corações, dentro de nós; de tal maneira que não haja nada fora de nós que nos impeça a escutá-la no coração. Em nome de Jesus. Amém.

Vocês lembram do que eu acabei de falar antes de ler o texto. João está interessado em apresentar para nós, nessa construção que ele faz, uma mensagem.

E que mensagem é essa?

Existem vários desdobramentos dessa mensagem, mas o centro dela, simplificadamente, é basicamente o seguinte: O ministério de Jesus começa num casamento. Numa festa. Em bodas. Na experiência do encontro humano, da alegria humana, no ápice da celebração do encontro humano, que é a conjugalidade que se assume como satisfeita na intenção de que a vida inteira aconteça a dois.

Ali, se estava cumprindo uma determinação existencial de Deus. Num casamento, se está cumprindo um projeto existencial de Deus e rodando um softer que Ele instalou no coração humano quando o criou. Porque o criou, perfeito. Sem pecado, sem defeito, sem coisa semelhante; mas ainda que o tenha criado assim, deixou na perfeição o buraco de uma necessidade a ser preenchida. Havia um vazio no perfeito? Não! A perfeição, no homem, não prescindia do encontro.

De modo que não havia queda, não havia pecado, não havia coisa alguma que relativizasse a experiência do homem com Deus quando o próprio Deus deixa Adão sentir a nostalgia do desejo de um encontro com um semelhante.

E o Senhor, então, vê a saudade de-não-sei-do-quê que estava habitando o coração de Adão.

Isso interessa, em muito, a nós, porque Deus é um Deus tão extraordinariamente Deus, que Ele não faz aquilo que um deus inseguro faria. Um deus inseguro de si, criaria criaturas cuja necessidade absoluta, única, exclusiva, total e plena, fosse de Deus, e só de Deus. Mas o Deus que é, é tão Deus, que Ele cria criaturas—e aqui no caso, da criatura humana—, que antes mesmo de ter experimentado sua própria relatividade, como pecado, culpa, queda, vergonha, des- sincronia de Deus, separação—Sim! antes disso tudo, ainda enquanto o homem está vivendo a tranqüilidade pura do Jardim, nas condições daquela criação que não havia sido tocada nem poluída por coisa alguma, já havia o sentir da necessidade de um outro, de um igual.

Até porque, como diz o apóstolo João, aquele que ama a Deus, a quem não vê, manifesta o amor de Deus naquele a quem ele vê; de modo que, a complementaridade da consciência da fé e da relação com Deus, acontece nesse nível, horizontal: toda experiência com Deus que não desemboca no encontro com o próximo e na percepção do próximo e no amor ao próximo, não foi experiência de Deus, profunda e genuína. Não é assim hoje; e, interessantemente, não era antes de haver culpa de pecado no mundo, porque Deus estabeleceu que assim fosse; e disse: Não é bom que o homem esteja só, far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.

Aqui acaba aquela angústia culposa dos seres humanos têm em relação a Deus. Sim, eles amam a Deus têm fé, são cheios de esperança, foram marcados e selados pelo Espírito Santo, são habitação de Deus, são santuário de Deus, e, ainda assim, sentem falta de um abraço, de um beijo, de um carinho, de uma mão amiga, de um convívio, de um cônjuge, de um outro com quem compartilhar a vida, de uma companhia, de relacionamento; não apenas conjugal, mas também fraternal, ou de qualquer outro nível; porque está estabelecido pelo próprio Deus, antes de haver pecado, e não como decorrência do pecado, mas como decorrência da criação e da instituição do tipo de ser que nós somos, que a nossa relação com Deus não faz supressão da nossa necessidade de vinculação com o próximo. E foi Deus quem assim o instituiu, de modo que você não tem que fazer projeção e nem sublimações para Deus de necessidades que são completamente humanas, porque nem só de pão vive o homem, mas também de pão vive o homem. O homem não pode é jamais viver sem a Palavra que sai da boca de Deus.

Portanto, o meu conhecimento de Deus e o aprofundamento da minha vida com Deus, não faz supressão de necessidades básicas da vida, assim como eu me alimentar da Palavra de Deus não me exime da necessidade de comer pão todos os dias e de dizer: O pão nosso de cada dia nos dá hoje!

Se a gente entende isso, algumas coisas começam a ficar claras. Jesus está, portanto, presente, fazendo um milagre, no ponto vértice do encontro humano. E o gênesis do encontro humano, foi a criação da mulher; que é trazida ao homem por causa de um reclamo do homem, por causa de uma nostalgia de um ser satisfeito com Deus e carente de um encontro com um semelhante.

Porque assim como o Gênesis apresenta a chegada de um igual para complementar esse ser que carrega a imagem e semelhança de Deus, mas que no mundo só se sente também satisfeito se encontrar um semelhante, e fazer com ele, Um na caminhada—Assim também o Verbo encarnado, e que estava entre nós, inicia o seu primeiro contato explicito como o Adão da Graça, no encontro entre o homem e a mulher. Sim, Ele faz isso num casamento.

Só que naquele casamento, de maneira extraordinária, o vinho acaba. E acaba de modo extremamente próprio para as intenções de Jesus, no que diz respeito à Sua fala metafórica; em relação a mensagem que ele queria propor.

Acaba o vinho, e a mãe de Jesus, como todas as demais mulheres atentas às coisas que estão acontecendo, não apenas no salão de festa, mas na cozinha—porque essa é uma tarefa para a qual a mulher, quase sempre, tem todas as antenas ligadas—, e diz ao seu filho: Olha, acabou o vinho. O pessoal está na maior agonia. Não têm mais o que tomar, e a festa ainda está longe de terminar. Eles estão com um problemão.

Aí Jesus disse: Mulher, o que tenho eu a ver com isto? Com este problema, com esta hora?

Mas ela vai adiante, chama os serventes, aponta o filhão, e diz assim: Ó! Façam tudo quanto Ele disser.

Aí os caras, no ar, ficam assim, sem pai e sem mãe, diante de Jesus, sem saber o que é que viria pela frente. E Jesus olhou e viu que havia ali 6 talhas, que os judeus usavam para as purificações. Eram talhas para lavagens de mãos, aquelas ali. Geralmente os judeus tinham em casa dois tipos de talhas. Uma nas quais se poderia colocar até cerca de 7 galões e meio de água; que é o caso dessas aqui, para que se lavasse as mãos, para que se fizessem as abluções de limpezas rituais do corpo, e também para que se usasse na lavagem de colchões, utensílios e demais objetos que precisavam ser purificados conforme o rito; especialmente o rito conforme o farisaísmo que queria tudo completamente “purificado”, como se a água tivesse esse poder de purificação espiritual, em-si.

E havia também um outro tipo de talha na qual se poderia colocar cerca de 40 galões de água. E essas, eram usadas para o indivíduo tomar o banho inteiro, o banho purificatório. Aí ele entrava e ficava se lavando todo, enquanto fazia suas próprias orações de limpeza; era um “descarrego” do que ele estava trazendo da rua.

Nesse caso em questão, como eu disse, as talhas são as menores. Mas assim mesmo não são tão pequenas: 7 galões e meio de água; não é pouca coisa para se colocar dentro de uma talha.

Seis talhas com aquela capacidade de guardar conteúdo líquido! E Ele não hesita; quando Ele olha e vê aquelas talhas das purificações, Ele disse: Peguem!

Ora, as talhas eram consideradas sagradas dentro da casa. Eram utensílios sacrossantos, eqüivaliam à pia batismal, que ali está, sendo que essa aqui é pequena em relação a quantidade de líquido que aquelas talhas podiam conter.

Foi um choque! Era como alguém remover a pia batismal desta Catedral dali e encher ela com vinho!

Imagine: se o casamento estivesse acontecendo aqui dentro, e se a recepção acontecesse também aqui dentro também, e eu enchesse essa pia batismal com vinho. Agora, de certa forma, dá para começar a imaginar o impacto do que aconteceu! Sim, porque a gente lê isso tudo, assim, com uma ingenuidade, tudo muito bonitinho para nós; e a gente não tem idéia do impacto na consciência dos presentes; que não eram gentios como nós, que temos uma herança pagã, que fizemos uma outra viagem. Para eles, o significado era absolutamente cho-can-te!

De fato, significava algo profano, o que Jesus realizou.

—Tragam aquelas talhas da purificação, encham-nas d’água e depois levem ao mestre-sala!

Aí eles foram e fizeram exatamente o que Jesus havia falado; encheram as talhas de água, e levaram ao mestre-sala. E o mestre-sala chegou, olhou, e quando ele olhou, abriu: Vinho!

E este aqui é um aspecto interessante, porque este milagre acontece sem toque, sem declaração de palavras. É um milagre que acontece determinado pelo Desejo de Deus. Assim como o casamento. Casamento é instituição do desejo, da vontade, da escolha. Aquele milagre também. Acontece em conformidade e com absoluta propriedade em relação ao momento.

O momento era celebração do desejo. O momento era a celebração da vontade. O momento era a celebração da escolha.

O milagre acontece como escolha de Jesus, vontade, desejo. Ele só deseja que assim seja; e assim é.

E aí, o mestre-sala prova, e diz: Não tinha havido ainda nessa festa, vinho melhor do que este!

Chama o noivo, e diz: Olha, há uma lógica invertida acontecendo aqui. Em qualquer cerimônia das que eu organizo—e o texto grego para mestre-sala, de fato, é governador; aquele indivíduo que é o chefe do cerimonial, que fica ali dizendo o quê é o quê, quem é quem; onde é que fica quem; como é que as coisas acontecem, como é que a festa tem que se desenvolver—tudo acontece diferente do que está acontecendo aqui.

Sim, aquele homem diz: De todas as festas que eu já organizei esta é a mais inusitada. Porque ela viola a lógica da camuflagem. Normalmente, põe-se primeiro o bom vinho, e quando todos já beberam fartamente, quando existe já um mínimo de intoxicação dos sentidos, quando a alegria já tomou conta do coração; e ai o indivíduo já começa achar que guardanapo é bolo—; é ai, então, que se serve o vinho inferior. E ai, às 4 horas da manhã, tanto faz o que eles estão tomando. Vinagre já virou vinho de safra boa. Mas tu, inverteste completamente esta lógica, porque tu guardaste o bom vinho até agora.

E é extraordinário nisso tudo também a discrição de Jesus. Não há salamaleques, não há glória pessoal a ser demonstrada; a não ser para aqueles que discerniram o mistério; a não ser para aqueles que discerniram a “discrição” de Deus; a não ser para aqueles que estavam próximos o suficiente para ter percebido a mutação não declarada; com ausência total de exibicionismo.

É por isso que eu me enojo tanto de todos os milagres que fazem propaganda de si mesmos. Porque com Jesus de Nazaré não foi assim.

E aí, João diz: Assim deu início Jesus, aos seus sinais, em Caná da Galiléia, manifestou a sua glória e os seus discípulos creram Nele.

Só os que estavam perto e abertos discerniram e perceberam. Os outros, receberam o benefício de alguma coisa que para eles não chegou nem a ser um problema, porque a necessidade não havia sido confessada como tal para aqueles que ali estavam reunidos. A festa apenas continuou e ninguém ficou nem sabendo porque que continuou.

O que será que Jesus está nos ensinando com isso? E o que será que João, ao usar este milagre inicial está nos dizendo?

Especialmente na seqüência, quando isso se emenda com a purificação do templo, um pouquinho depois; que significado terá?

A primeira coisa, gente, é que os nossos recursos humanos são todos finitos, são todos acabáveis, são todos exauríveis. Em qualquer dimensão da nossa vida, e não apenas relacionada ao casamento, mas em qualquer outra área da vida , o que o homem produz tem começo e tem fim.

A segunda coisa é que a melhor preparação humana não é, de modo algum, garantia de que não haverá uma surpresa, um susto, uma frustração, uma impossibilidade de dar continuidade por conta própria ao que estava em processo. Também mostra-se a impotência humana quanto a carregar em-si-mesma todas as soluções para os sustos da vida.

A gente faz planos, a gente projeta, a gente estabelece, a gente vai fazendo o que pode, mas mesmo o mais preparado de nós não tem como prever seguramente o que pode acontecer; porque, às vezes, é o vinho que acaba; outras vezes, é o telhado que cai sobre o vinho que não ia acabar.

Mas aqui se estabelece o limite humano. A impotência humana, a incapacidade humana de fazer solução para sua própria situação quando ela se estabelece como surpresa total.

A terceira coisa que aqui aparece tem a ver com essa vontade de Deus de que a celebração humana não termine; e não acabe. Em Jesus de Nazaré, a gente tem um Deus que gargalha, a gente tem um Deus que ri, a gente tem um Deus amigo de pecadores, a gente tem um Deus que come, a gente tem um Deus que bebe, a gente tem um Deus que aceita convites para festas, a gente tem um Deus que participa de banquetes, a gente tem um Deus que é a própria desconstrução do “deus” da Religião; ou de todos os outros deuses, que são completamente antagônicos a alegria humana.

Todo “Deus” é meio Zeus. Grego, caprichoso, profundamente de veneta, e que de vez em quando faz intervenções abruptas; porque a alegria dos mortais gera ciúme nele.

Assim também é o deus da religião. Por exemplo, o deus cristão, que não necessariamente é Jesus-Deus, mas é uma criação nossa—Sim, veja como é o deus cristão. Trata-se de uma produção, muitas vezes da nossa própria criação, um deus feito à nossa imagem e semelhança, muitas vezes, muito parecido com os deuses dos gregos. Não suporta alegria na terra; é um estraga prazeres. Se tiver começando a ficar bom, o cara já começa a ficar culpado e com medo de deus. O indivíduo já nem confessa muito a alegria com aquele medo de que “Deus-Zeus”, a qualquer hora, venha e estrague.

Então me diga se essa não é uma neurose instalada dentro de nós?

Me diga se você não tem medo de “Deus” quando se trata de prazer e alegria!?

A pessoa pensa: Eu nem vou dizer que eu estou feliz demais que é para não acabar!

Uma das frases mais próprias para nós é: Isso aqui é bom demais para ser verdade!

Ou seja: se está bom, a gente até atribui uma mentira a isso que está acontecendo porque não é possível que o bom seja bom.

E porque não é possível que o bom seja bom, se não porque, aqui no fundo, a gente tem medo de que celebrar o bom como bem, possa significar algum tipo de ciúme na divindade ou em qualquer outro poder? Sem falar na inveja dos homens, que virá destruir o que está acontecendo com a gente!?

O fato é que a experiência do gostoso, do bom, da felicidade, do alegre, do jubiloso, daquilo que é dionísico, nesse sentido de que deixa a alma feliz, já carrega em si, para nós, uma dose de culpa. Aí você tem que fazer regulação das suas próprias alegrias. Ou então você fica alegre, alegre, alegre; mas toda hora dizendo: Senhor, Tu és a minha alegria maior! Senhor, Tu és a minha alegria maior! Oh! não esquece não Senhor, que o Senhor é a minha alegria maior; viu?! Não! Não te equivoques a meu respeito. Mas que está bom, está! Mas o Senhor é a minha alegria maior!

Ou então faz-se como os judeus, lá no Salmo 137. Estando eles lá no cativeiro em Babilônia, quando os babilônios lhes pediam para cantar canções de Deus em terra estrangeira, e eles diziam: Aqui não dá para cantar, porque nós estamos em cativeiro; e como é que a gente vai celebrar as alegrias de Sião aqui numa terra estranha?

Mas há uma frase no salmo 137 que não tem nada a ver com o que eu estou falando de um modo geral no contesto mais amplo desta mensagem, mas que tem a ver com o que eu vou falar ainda, e que se relaciona com o que eu acabei de dizer; e que diz o seguinte: Ó Jerusalém, se eu me esquecer de ti, que me seque o meu braço direito e que a minha língua se me apegue ao céu da boca, se eu não te puser a ti, ó Jerusalém, como a minha maior alegria.

E é o que os judeus fazem hoje num casamento; sabem o que é? É pegar, depois do casamento, um cálice, colocar no chão, cobrir com um pano, e o cara vai alí e faz assim ó, páaa!—e esmaga o cálice! Porque? Ele está dizendo que a maior alegria dele, está “debaixo” de Jerusalém. É uma confissão para Deus, que tem que se repetir; olha: Eu estou feliz da vida; mas saiba: “O dia da minha maior alegria eu esbagacei todinho, por amor a Ti!” Como se Deus não ficasse alegre com as nossas alegrias. Como se a alegria de Deus não fosse a nossa alegria. Como se o júbilo de Deus não fosse nos ver reconciliados, felizes, bem amados, amando, nos encontrando, vivendo.

Em Jesus, esse milagre de transformar água em vinho coincide completamente com a declaração que Ele fez a cerca de si mesmo: Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância. A alegria de vocês é a minha alegria. O que fizer bem e construir o coração de vocês, é a minha felicidade!

Deus não sente ciúmes de Eva, nem de Adão, e nem da necessidade de Adão de encontrar Eva. E não se sente menos Deus quando Adão, antes mesmo de haver queda, diz: Eureka! Esta, afinal, é carne da minha carne, osso dos meus ossos; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tirada, foi projetada. É projeção do meu desejo!

Deus não se enciúma da alegria!

A outra coisa que Jesus está ensinando com isto é que um dos piores inimigos da felicidade humana é a religião que quer se instituir como absoluto existencial, no coração da gente. E ele aí desce um cacete metafórico na limitação da religião. Assim como o homem não consegue fazer provisão para si mesmo que traga felicidade perene para o seu próprio coração, nem tampouco a religião o pode. E o que salva a religião, é vinho. O que salva a religião é que seu conteúdo seja transformado em celebração de vida que não se antagonize com a felicidade humana. Porque a religião sim, diferentemente do Deus vivo e verdadeiro, é ciumenta, é caprichosa. Onde houver alegria, ela quer diminuir o facho. Onde houver uma esperança e uma festa na praça, ela quer parar para, de repente, estabelecer uma ordem fora de ordem. Ela quer fazer uma intervenção com a impropriedade da manifestação que diz: eu estou presente aqui!

Porque a religião, sim, não consegue ver liturgia no encontro dos amantes; não consegue ver alegria no encontro fraterno que ela não controle; não consegue discernir devoção no beijo; não consegue ver espiritualidade na gargalhada feliz de quem está satisfeito de ser quem é, de ter encontrado outros, e de celebrar a vida; ela não consegue ver liturgia na vida.

Aí vem Jesus e bagunça o coreto! Opera o milagre de transformar água em vinho na pia batismal, nas talhas da religião.

—Olha, este container de líquido já não servirá nesta noite para qualquer ablução religiosa, que lava apenas as mãos, mas não lava o coração. Vocês terão que aprender a beber nas talhas da religião o vinho da felicidade! Porque foi isto que eu vim fazer! Encher de alegria e vida o que antes era pedra e religião.

E mais do que isso, Jesus prossegue e entra no templo. Ele tinha acabado de transformar água em vinho, nas talhas da religião, nas pias de purificação, nos containers sacrossantos que ofereciam a água benta para lavagem de impurezas; e que nada mais podiam lavar do que apenas a colagem e o grude de micróbios e de sujeiras que se agregam à mão. Portanto, não têm o poder de produzir nada mais do que higiene para o corpo; jamais higiene para a alma.

Aí, Jesus entra no templo. E notem como a seqüência continua. Passa do extraordinário, como o milagre de transformar a água em vinho; e transcende o episódio em si.

Vem do casamento. Era remédio da misericórdia de Deus para aquela hora; e o remédio da misericórdia de Deus para aquela hora era socorrer os noivos de um vexame; e ajudá-los a não verem o dia da sua alegria ser interrompido por causa de uma escassez. Mas é muito mais do que isso.

Ele agora entra no templo. Aí, quando Ele entra lá, Ele vê negócios sendo feitos, barganhas; e a cena é chocante; até boi tinha lá!

Baummm! Já imaginaram? Aquele curral e todas as suas “decorrências”; porque até hoje eu não encontrei um boi com “etiqueta”. O bicho vai, dá vontade, e blum...bluá...blum!

Boi e ovelha: bluá e blum! Pombo? Piolho! Todas aquelas coisas; um zoológico no templo. E a moçada dizendo: Olha, pombos para purificação mais baratos na minha tenda! Venham aqui! Ou então: Uma vaca sagrada!—depois dizem que isso é coisa de indiano! Uma vaca sagrada, aqui! A minha é melhor!

E os caras gritando, e os outros se oferecendo para o cambio—Não tem como trocar a minha? —Venha, aqui tem troco. Vamos lá! Forneço! Vamos que vamos povo de Deus!

Era um Mercado Espiritual. Ou como boa parte das igrejas prevalentes de hoje em dia.

O evangelho de Marcos diz que Jesus fez o azorrague bem devagar. Foi tecendo. Aqui e ali ele enfiava um objeto assim, duro, uma ponta de alguma coisa. Amarra ao azorrague.

Você já viu um azorrague palestino? Não é brincadeira não. O bicho entra e rasga. Jesus fez um azorrague. Marcos chega a dizer que primeiro Ele observou tudo e ele se retirou. Não foi ato contínuo. Ele volta no dia seguinte com o bichinho bem feito. Sabe? Fez igual a um rosário; foi fazendo, fazendo, aprontou.

E no dia seguinte Ele entra lá; e aí meu querido, literalmente, João diz: Ele virou a mesa! Essa é uma expressão coloquial nossa, mas antes de o ser, é do Evangelho. Virou as mesas! Expulsou os cambistas. Enxotou os animais. E falou em especial aos que vendiam pombas. Devem ter sido os que ficaram por último. Os que acharam que a poma torna tudo inocente!

Ele falou para os que vendiam pombas. São os recalcitrantes que se auto justificaram e se esconderam atrás das pombas.

—A casa do meu Pai não é casa de negócios. A casa do meu Pai é casa de oração.

Agora, o que uma coisa tem a ver com a outra?

Num primeiro episódio, Ele pega as talhas da religião e enche de vinho. Num segundo, Ele entra no templo e expulsa a nojeira. E, assim, Jesus mostra como a mente humana é equivocável, como a gente é capaz de não suportar o dia da alegria, onde o vinho é pertinente; enquanto a gente é capaz de engolir os camelos da impertinência, da arrogância e da irreverência para com o lugar o sagrado. Isso a gente tolera fácil. Se for feito em “nome de Deus”, a gente engole todos os camelos! Se não for feito em nome de Deus, a gente côa todos os mosquitos! Aí o cara entra em crise, porque Ele transforma água em vinho. Não entra em crise porque se fez da fé um negócio.

Fonte: http://www.caiofabio.net/conteudo.asp?codigo=02320


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